Bandeirantes/MS, 18 de abril de 2024

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‘Foi R$ 5 mil em uma semana’, afirma vítima sobre gastos com médica suspeita de emitir laudos falsos de câncer de pele

Uma mulher que pede para não ser identificada contou ter gastado mais de R$ 5 mil em uma semana após a médica Carolina Fernandes Biscaia Carminatti, de Pato Branco, no sudoeste do Paraná, ter feito “terror psicológico” afirmando que ela estava em um estágio próximo ao melanoma, tipo mais grave de câncer de pele.

Carolina é investigada por suspeita de emitir laudos falsos da doença.

Segundo a vítima, a médica explicou para ela que era necessária a retirada de duas pintas com urgência.

“Foi R$ 5 mil em uma semana. Na primeira consulta, ela avaliou e disse que tinha duas pintas suspeitas de melanoma, ela tirou para biópsia e cobrou R$ 2 mil. Dias depois, ela fez um terror, me ligou dizendo que não podia passar diagnóstico por telefone, que era urgente”, relembrou a paciente.

À esquerda, laudo laboratorial, à direita, laudo apresentado pela médica para paciente — Foto: Arquivo pessoal

À esquerda, laudo laboratorial, à direita, laudo apresentado pela médica para paciente — Foto: Arquivo pessoal

Conforme a vítima, as marcas do procedimento para a retirada das pintas ainda estão visíveis na perna esquerda.

“Me apresentou um laudo falso, falou que já estaria se transformando em melanoma, que 70% das células já eram de melanoma, que tinha que fazer a ampliação de imagem com urgência. Aí ele fez um retalho na minha perna e cobrou mais R$ 3 mil. Sai tão desesperada, chorando no carro com aquele terror psicológico que ela tinha feito”, relembrou a mulher.

Mulher passou por retirada de possível material cancerígeno após apresentação de falso laudo médico — Foto: Arquivo pessoal

Mulher passou por retirada de possível material cancerígeno após apresentação de falso laudo médico — Foto: Arquivo pessoal

A descoberta do laudo falso

Conforme a vítima, o desespero dela aumentou porque em 2013 ela teve, de fato, um melanoma – e as antigas lembranças levaram a família ao desespero. Com novo diagnóstico dado por Carolina, a vítima contou que teve medo de morrer e deixar o filho pequeno.

“No desespero, eu só falava para o meu marido ‘amor, de a outra vez que o meu oncologista me ligou com calma para ir pro consultório me dar o diagnóstico, marcou cirurgia com calma, mesmo com melanoma avançado., Para a médica ter feito essa urgência toda, deve estar em metástase, eu estou morrendo’”, relembrou a vítima.

Três dias após passar pelo procedimento de ampliação de margens – que consiste na retirada de parte da pele onde supostamente estaria o câncer – a vítima decidiu pesquisar melhor o próprio caso e passou a perceber diferenças em comparação ao antigo diagnóstico.

“Diante dessas inconsistências, e eu não tinha recebido o laudo físico dela, eu fui verificar com o laboratório se eles poderiam encaminhar e quando recebi, vi que o resultado era diferente do apresentado na consulta da ampliação”, afirmou a mulher.

Vítima procurou antigo médico

Depois do diagnóstico do suposto câncer, a mulher decidiu contatar o médico oncologista responsável pelo antigo tratamento dela para avaliar o laudo. Com o antigo profissional, veio a confirmação: a mulher não tinha nenhum tipo de indicativo para câncer de pele, de acordo com o laudo retirado no laboratório.

“Vi que falava que eram pintas de pele normal, com margens livres e benignas. Então fui ao meu oncologista e ele atestou que não tinha nada na minha perna, que não precisava ter feito a ampliação de imagem, que ela tinha retirado duas pintas de pele normal como qualquer outra”, relembrou a vítima.

Com as marcas que ainda permanecem na perna, a mulher é obrigada a lidar com o trauma todos os dias. A ajuda psicoterapêutica tem sido uma saída.

“Mistura de sentimentos, tenho buscado a psicoterapia para tentar superar porque é muito difícil. Eu já tive diagnóstico de câncer, já enfrentei um melanoma, então eu sei o quanto é difícil, o quanto é agressivo, o alto grau de mortalidade. […] Me veio primeiro aquele sentimento de que vou morrer, vou deixar meu filho sem mãe, desespero”,

“Depois o sentimento de tristeza, após descobrir tudo, por imaginar que existem profissionais capazes de fazer uma crueldade dessas, de brincar, usar de uma doença tão séria como câncer e de uma profissão tá nobre como a medicina. E a revolta de ser que ela está solta e muitas vítimas que ela fez”,

O que ela deseja é que as investigações sejam concluídas e que a médica seja punida.

Investigação indica ‘modus operandi’

Conforme o delegado Helder Andrade Lauria, nas consultas a médica examinava pintas e manchas dos pacientes e afirmava que algumas delas poderiam ser cancerígenas.

Na sequência, ela fazia retirada de material e encaminhava para um laboratório. Na reconsulta, ela apresentava ao paciente um laudo aparentemente falso, com diagnóstico de câncer de pele.

Segundo as investigações, a médica, então, marcava o procedimento de ampliação de margens. A cirurgia era feita no próprio consultório dela e custava de R$ 3 a R$ 13 mil por paciente, segundo a polícia.

A investigação começou após duas pacientes, que se conheciam, comentarem uma com a outra que a médica não entregou a elas o laudo que indicava que elas tinham câncer de pele.

Umas das pacientes procurou o laboratório exigindo o exame. Ao receber o laudo original, ela descobriu a farsa e, assim, iniciaram as denúncias, segundo a polícia.

Médica foi alvo de busca e apreensão

Em 23 de fevereiro, após cinco denúncias formalizadas, a Polícia Civil realizou mandados de busca e apreensão na casa da médica.

No local foram apreendidos celulares, computadores e diversos laudos que, na sequência, foram encaminhados ao Instituto de Criminalística “para comprovar a falsificação”, afirmou o delegado Helder.

Se comprovada a fraude, a médica poderá responder por crimes como estelionato e lesões corporais. Somadas as penas podem chegar a 6 anos de prisão.

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