Olívia Jafar é investigada na Operação Gutenberg, que apura um esquema de fraude de R$ 27 milhões envolvendo contratos de livros e a regulação de vagas do SUS em Mato Grosso do Sul.
A médica Olívia Paroschi Jafar, um dos alvos da Operação Gutenberg, foi presa no dia 7 de julho e deixou a prisão no sábado (18), após pagar fiança e passar a usar tornozeleira eletrônica. Nas redes sociais, ela se apresentava como especialista em estética e técnicas de emagrecimento.
A operação apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de usar a regulação de vagas, exames e cirurgias do Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso do Sul para pressionar prefeitos a comprar livros da Editora Avante.
Olívia é sócia-administradora da empresa Jafar Estética e Saúde, que funciona no mesmo endereço da Clínica Ross. Conforme as redes sociais da clínica, ela realizava procedimentos estéticos com aplicação de enzimas para redução de gordura localizada.
Em nome da Jafar Estética e Saúde, Olívia também mantinha um contrato de prestação de serviços com a Santa Casa de Campo Grande, assinado em 16 de junho de 2025, com vigência de 12 meses.
Conforme o contrato, Olívia foi nomeada responsável técnica. O documento estabelece que ela prestaria assistência a pacientes particulares e de convênios do Prontomed, com atendimentos de urgência e emergência, conforme a demanda. Ainda segundo o contrato, a médica receberia R$ 125 por hora trabalhada.
O g1 procurou a Clínica Ross, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Em nota, a Santa Casa informou que a empresa Jafar Estética e Saúde foi contratada para plantões eventuais na linha privada, mas não atua na instituição há três meses.
A defesa de Olívia, representada pela advogada Estella Bauermeister, afirmou que o contrato firmado com a Santa Casa não tem relação com os fatos investigados. (Veja as notas na íntegra ao final da reportagem).
“Trata-se exclusivamente do instrumento utilizado para formalizar a prestação de serviços médicos em regime de plantão, por meio de pessoa jurídica”, afirma.
Prisão e pagamento de fiança
Olívia é suspeita de participação no esquema investigado pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Segundo as investigações, o esquema teria movimentado mais de R$ 27 milhões em contratos considerados fraudulentos entre 2022 e 2024.
A liberdade da médica foi confirmada ao g1 pela defesa, que não informou o valor da fiança. Segundo a advogada Estella, a Justiça determinou que ela use tornozeleira eletrônica, compareça sempre que for convocada e não mantenha contato com familiares que permanecem presos.
Além de Olívia, a operação também cumpriu mandados de prisão contra a mãe dela, Rossana Paroschi Jafar, e os irmãos Felipe Paroschi Jafar e Giovanni Paroschi Jafar. Os três continuam presos.
Também foram presos:
- Rhayane Souza Fanaia, ex-nora de Rossana;
- Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, ex-prefeito de Fátima do Sul e assessor parlamentar;
- Ed Carlo Britto Burgatt, coordenador de regulação de Mato Grosso do Sul;
- Francisco Anizio dos Santos;
- Matheus Oliveira Peixoto;
- Paulo Rogério de Melo, empresário;
- Douglas Henrique de Melo, empresário e filho de Paulo;
- Gabriel Taquino de Paula;
- Jessyca Duarte Burgatt, filha de Ed Carlo Britto Burgatt, que já deixou a prisão;
- Joatan Gomes Peixoto, que também obteve liberdade e passou a usar tornozeleira eletrônica;
- Geancarlo Leal de Freitas, servidor público que também foi solto.
- Heyder Bartz, o único entre os alvos de mandado de prisão que está foragido. Ele é apontado pelo Gaeco como um dos chefes da suposta organização.
Saúde de MS como “moeda de troca”
As investigações apontam que os envolvidos interferiam diretamente nos setores de compras das prefeituras e forneciam um “manual” com orientações para direcionar as contratações por inexigibilidade de licitação. O material incluía instruções sobre a elaboração de estudos técnicos preliminares, pareceres jurídicos e emissão de notas fiscais.
🔎 O grupo é apontado como uma sucessão familiar do esquema investigado anteriormente na Operação Lama Asfáltica, mantendo modelos semelhantes de atuação sob o comando de Rossana Paroschi Jafar.
Segundo o Gaeco, o núcleo do esquema contava com a participação de Ed Carlo Britto Burgatt, então coordenador de regulação da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MS), que teria usado o cargo para favorecer ou prejudicar municípios conforme os interesses da Editora Avante.
O que diz a defesa de Olívia Jafar
“A Justiça reconheceu expressamente que Olivia Paroschi Jafar não integra o núcleo que chefia a organização criminosa, entendimento que fundamentou a substituição de sua prisão preventiva por medidas cautelares.
A advogada Estella Bauermeister, que assumiu recentemente a defesa de Olivia Paroschi Jafar, informa que, após criteriosa análise dos autos e apresentação de manifestação técnica da defesa, um dos fundamentos acolhidos pelo Juízo das Garantias foi o reconhecimento expresso de que “ela não integra o núcleo de chefia da organização”, circunstância que, juntamente com os demais elementos dos autos, fundamentou a substituição da prisão preventiva por medidas cautelares diversas, dentre elas o monitoramento eletrônico.
Médica, Olivia Paroschi Jafar sempre desenvolveu suas atividades profissionais exclusivamente na medicina, profissão da qual retira, de forma digna e independente, o seu sustento. Nunca exerceu qualquer função de direção ou administração das empresas investigadas, possuindo vida profissional, renda e residência próprias.
A análise técnica dos autos realizada pela defesa evidenciou que Olivia possui situação absolutamente distinta da atribuída aos investigados. Não exercia qualquer papel de direção, comando ou gestão na suposta organização criminosa e não mantinha vínculo com a as pessoas investigadas, muitas das quais sequer conhecia, além de sua mãe e irmãos.
A defesa também esclarece que o contrato firmado com a Santa Casa, amplamente divulgado pela mídia, não possui qualquer relação com os fatos investigados. Trata-se exclusivamente do instrumento utilizado para formalizar a prestação de serviços médicos em regime de plantão, por meio de pessoa jurídica, modalidade amplamente adotada por hospitais e profissionais da medicina para contratação e remuneração de seus serviços.
A defesa seguirá atuando para demonstrar, no curso do processo, a efetiva individualização da conduta atribuída à investigada, com a convicção de que a análise técnica dos fatos prevalecerá”.
Estella Bauermeister e Lucas Gertz, advogados.
O que diz a Santa Casa
“A Santa Casa de Campo Grande informa que o contrato firmado com a empresa Jafar Estética e Saúde Ltda., de propriedade da cirurgiã-dentista Olívia Paroschi Jafar, foi estabelecido para a realização de plantões eventuais na linha privada da instituição. Ressaltamos, contudo, que há três meses não são realizados plantões pela referida empresa. O valor pago sempre é realizado quando o plantão é feito.”


